Salve, Nobre Padroeira
FRANCISCO RAFAEL DA SILVEIRA MALHÃO (1794-1860) foi um sacerdote, orador sacro, poeta e músico, nascido em Óbidos, onde viveu e centrou a sua actividade até à morte. Tendo feito a sua formação no Seminário de Santarém, dedicou-se, mais tarde, a estudos mais aprofundados de Teologia e Música. Filho do célebre “Poeta de Óbidos”, foi reconhecido como um dos maiores oradores do seu tempo, colocado ao nível de figuras como o P. António Vieira ou P. Manuel Bernardes; dotado de grande talento poético, colaborou, juntamente com outros poetas de nomeada como Bocage e Filinto Elísio na tradução de obras de Racine e La Fontaine.
Aquando da definição dogmática da Imaculada Conceição, pelo Papa Pio IX, em 1854, terá composto o Hino “Salve, Nobre Padroeira” em honra da já celebrada Padroeira de Portugal. Referido habitualmente como “popular”, dada a forma como entrou na cultura e devoção portuguesas a Nossa Senhora, este cântico vem publicado na colectânea Cantar é Rezar com a indicção do seu nome apenas como autor do poema, sendo ignorada a autoria da música, ali apresentada com um acompanhamento da responsabilidade do salesiano José Maria Alves. Dadas as referências biográficas a estudos de canto e música, nada impede que a própria música, ao estilo marcial tão próprio do tempo, aliando o sabor popular a uma considerável maestria técnica no que respeita à construção da melodia, a duas vozes iguais, se possa atribuir, como fazem alguns, ao mesmo sacerdote e poeta.
A versão apresentada por José Maria Alves, retira a terceira das aclamações do Refrão original, e é assim que é normalmente cantado; no entanto, a variação melódica e harmónica da mesma secção justifica a utilização da tripla aclamação “Tu serás o seu amor”. Por isso mesmo a conservámos aqui nesta versão, não sendo de excluir a interpretação mais corrente, omitindo então a segunda ou, em alternativa, deixando a terceira confiada ao Órgão em jeito de eco das anteriores. O arranjo aqui apresentado levou em consideração a versão original para duas vozes iguais, com prevalência do canto por terceiras, o que dificultou um pouco a elaboração do acompanhamento e a versão para quatro vozes. No entanto, parece-nos que o resultado compensou o esforço.
Meadela, 10 de Dezembro de 2021
Jorge Alves Barbosa
