Missa da Solenidade de São José (Próprio)
A figura de São José, Esposo da Virgem Maria, Pai adoptivo de Jesus, não tem usufruído como mereceria, dos favores da liturgia e da sua música, pelo menos a um nível que se aproxime daquele que a sua devoção preenche no coração do povo de Deus. Mantendo as características de Solenidade, a liturgia de São José, a 19 de Março, não goza da possibilidade de uma celebração ao nível dos Domingos, como acontece com São João Baptista ou São Pedro e São Paulo, nem de para lá ser transferida como aconteceu com outros “dias santos dispensados”. Ao mesmo tempo, o facto de cair habitualmente no tempo de Quaresma acaba por ser por esta um pouco ensombrada, com a ausência do canto do Aleluia, e devido ao próprio ambiente que rodeia tanto as celebrações como os espaços litúrgicos neste tempo penitencial. Quando olhamos para o repertório de canto litúrgico dedicado ao Santo, podemos constatar que o Gradual Romano nem sequer oferece para ele um formulário próprio, limitando-se ao Communio “Joseph, fili David”, remetendo nos restantes para o repertório do Comum dos Santos, mesmo que, felizmente, todos os textos se enquadram maravilhosamente e de forma eminente com a figura do Esposo de Maria.
A devoção popular dedica-lhe todo o mês de Março, e a sua importância – mesmo silenciosa – no mistério da salvação, colocava-o já num lugar especial no elenco dos Santos no texto do Canon Romano, lugar que foi recentemente recuperado por acção do Papa Bento XVI, que assim quis honrar de modo especial o seu onomástico. Alguns dos últimos Papas dedicaram-lhe uma atenção especial: Pio IX, pela Bula “Quemadmodum Deus”, de 8 de dezembro de 1870, declarou-o “Patrono da Igreja Universal”; Pio XII, através do Discurso às Associações Cristãs dos Trabalhadores Italianos, a 1 de Maio de 1955, declarou-o “Padroeiro dos Operários” e instituiu, neste dia dedicado aos trabalhadores, a memória litúrgica de São José Operário; a Const. Conciliar “Gaudium et Spes”, no seu n. 34, enaltece os méritos de São José no plano da redenção e o Papa João Paulo II haveria de lhe dedicar a Exortação Apostólica “Redemptoris Custos” (1989), proclamando-o “Guardião do Redentor; o povo de Deus aclama-o ainda como “advogado da boa morte” já que a sua morte prematura terá acontecido precisamente na companhia de Jesus e de Maria.
A piedade cristã e a arte oratória tiram um partido especial, em virtude do seu nome, do paralelo com José do Egipto, para o que lhe aplicam a mesma expressão que o Faraó dirigira ao seu povo esfomeado na procura de pão: “Ide ter com José”. Tal facto motivou uma onda de devoção especial e uma missão de mediador que o coloca nos cumes da intercessão, numa convicção de que Deus, mais do que a qualquer outro santo, atende tudo quanto este Santo lhe solicitar. Na súmula destes acontecimentos e, evocando o 150.º aniversário da proclamação de São José como Padroeiro da Igreja Universal por Pio IX, o Papa Francisco dedicou-lhe o ano de 2021, emanando para tal, a 8 de Dezembro de 2020, Carta Apostólica “Patris corde”, uma reflexão pessoal, em jeito de homilia, onde o Pontífice enaltece diversos atributos da personalidade do santo e alguns aspectos da sua missão, na sua relação com Jesus, Maria, a Igreja, a História da Salvação e até e a vida contemporânea.
Uma rápida pesquisa, ao repertório de música sacra, dá-nos conta de uma relativa exiguidade de obras dedicadas a São José; de facto, não consta que tenha ocupado especialmente a mente e as motivações dos compositores. Mesmo assim, podemos dar nota de alguns exemplos significativos da Missa in honorem Sancti Josephi: começando pelo compositor checo Jan Dismas Zelenka (1679-1745), missa composta em 1732, para quatro solistas, coro e orquestra, porventura uma das de proporções mais significativas; depois, a Missa em Sib dedicada a São José, do italiano António Caldara (1670-1736) para vozes e pequena orquestra tal como a de Johann Ernst Eberlin (1702-1762), para 2 vozes, violino e Contínuo; depois seria a vez do polaco Jozef Elsner (1769-1854) compor uma missa para Coro e grande Orquestra. Já no séc. XX, seria a vez das missas op. 42 do belga Jules van Nuffel (1883-1953), e op. 21 do também belga Flor Peeters (1903-1986) para Coro e Órgão. Recentemente, uma missa de Janusz Korckzac, para Coro a capella, a Leichte Messe de Emil Hug e a Sainct Joseph Mass de Howard Hughes. Com os cânticos do Próprio da Missa, a Piccola Messa di San Giuseppe do sacerdote e compositor milanês Gian Luigi Rusconi (1993).
No que respeita ao espaço português, para além de não conhecermos qualquer Missa dedicada a São José, não são muitos os exemplos de cânticos próprios da liturgia do Santo, centrando-se o repertório na dimensão devocional: assim, em 1924, e na conceituada editora italiana Carrara, o P. Manuel de Carvalho Alaio publicava Cânticos a Sam José, uma pequena coletânea onde, entre outros para diferentes circunstâncias, se encontram três, especificamente dedicados ao Santo, que se tornariam bastante populares: “Meigo Santo, a ti o canto”, “Quem do céu graças pretende” e “De José, com toda a fé”, presumo que pela divulgação feita entretanto pelo manual de cânticos dos Seminários de Braga, o célebre “Jubilate”, onde se encontram transcritos e por onde os cantávamos, particularmente no mês de Março. Na mesma coletânea podemos encontrar ainda um Hino a São José do P. João Cândido de Lima Torres, o cântico “De José, com toda a fé”, do Padre António Domingues Correia e “José, ó meu patrono” do P. Manuel de Faria Borda. Em 1944, o P. Manuel Ferreira de Faria escrevia, provavelmente em Roma onde na época se encontrava a estudar, o Motete “Te Joseph celebrent”, depois publicado no IV Fascículo dos Cânticos da Juventude e, mais tarde, “Outrora São José”, um hino dedicado ao santo que publicava na Nova Revista de Música Sacra, n. 5 da I Série, que eu haveria de apresentar posteriormente em versão para Coro e Banda. Relativamente à específica liturgia da Solenidade, os padres Manuel Luís, Carlos Silva e António Cartageno escreveram o respectivo Cântico de Entrada, com o texto do Missal Romano em vernáculo, sendo deste último uma versão para coro a 4 v. mistas, no estilo como lhe é habitual; Carlos Silva publicou também o respectivo Salmo Responsorial. Todos estes cânticos, seguem a mesma forma “responsorial”: Refrão com Versículos salmódicos. Para a Liturgia das Horas, o P. Ferreira dos Santos apresenta diversos exemplos de cânticos, publicando apenas a respectiva melodia. À liturgia da solenidade, a Nova Revista de Música Sacra, dedicava o n. 89 da II série (1999), com músicas de vários colaboradores, sobre textos do P. Fernando Melro, propostos para os vários momentos da celebração, embora apenas o Cântico de Entrada tenha como base o texto proposto pelo Missal Romano. Em resumo, não deixa de ser um pouco confrangedor o panorama musical dedicado ao Santo que a Igreja venera como seu Padroeiro, porventura em virtude de algumas limitações da respectiva celebração já apontadas acima a que acresce a progressiva influência mediática e consumista que transformou este dia no “Dia do Pai”, dirigindo para os pais terrenos, nomeadamente das crianças da catequese, todas as atenções da respectiva celebração. Ou seja, São José acabou por ser vítima da própria fama e o pai adoptivo de Jesus, de modelo incontestável do pai que cada um de nós é chamado a respeitar e venerar, é substituído por este, rapidamente canonizado e elevado a honras que só ao santo seriam normalmente devidas. Foi a constatação de alguns dos elementos que apontámos até agora, juntamente a uns tantos gestos desafiantes, que acabou por me decidir a voltar à escrita do Próprio da Missa a que tenho dedicado alguns dos meus trabalhos; para tal contribuiu decisivamente a leitura da Carta Apostólica “Patris corde”, do Papa Francisco, onde fui encontrar alguns elementos inspiradores e motivadores. Este texto acabou por não só inspirar mas, de certo modo, preencher um espaço considerável nos respectivos cânticos, nomeadamente onde o seu texto não está completo ou claramente definido, como acontece com a ausência de versículo ou estrofe dos Cânticos de Entrada e de Comunhão. Para a música, como habitualmente, fui colher e reelaborar o material fornecido pelo Graduale Romanum, nos cânticos previstos para a respectiva solenidade e que, como veremos, segui muito de perto.
