ROBERT SARAH – Il Cantico dell’ Agnello: Musica Sacra e Liturgia celeste

“A essência da Liturgia é converter-se e transformar-se; é medir-se em relação ao próprio mistério de Deus. Por conseguinte, a liturgia deve, por vezes, fazer-nos sentir desconfortáveis. Esse desconforto pode sacudir-nos e levar-nos a uma conversão de vida, tal como aconteceu com São Paulo no caminho para Damasco. Há um perigo sério se a Liturgia for reduzida a uma mera experiência gratificante, como se a Igreja oferecesse um paliativo espiritual nas manhãs de Domingo. Ver o Cristianismo como uma panaceia imuniza-nos contra a ideia de que é necessário converter as nossas vidas. Se estivéssemos a falar sobre pregação em vez de música, poderíamos perguntar-nos quantas homilias mencionam doutrinas provocadoras, como a realidade do Inferno ou a necessidade de seguir os ensinamentos morais da Igreja, mesmo quando são frequentemente ignorados pela sociedade. Quantas homilias apelam verdadeiramente à conversão e transformação da vida, em vez de simplesmente nos assegurarem que Deus nos ama independentemente das nossas acções? A Liturgia é um espaço sagrado onde encontramos as realidades da nossa fé, incluindo aquelas que são desconfortáveis ou provocadoras. Se respondermos a ela com maturidade, agradeceremos a Deus por esta oportunidade de crescer na nossa fé. Mas devemos suportar pacientemente os mal-entendidos, não fingindo modificar a Liturgia para a adaptar às perspetivas mundanas, mas educando e formando aqueles que procuram honestamente aproximar-se da Liturgia da Igreja, e que podem ter alguma dificuldade em compreendê-la e participar nela”.

Acabo de concluir a leitura dete livro e espero que muito em breve seja traduzido, publicado e divulgado, em língua portuguesa, ao lado de outros já disponíveis do Cardeal Robert Sarah. Um “livro-entrevista” escrito em parceria com Peter Carter, que trabalha no campo da música litúrgica, e vai provocando uma reflexão aprofundada e sobretudo corajosa do conhecido purpurado, sem medo de enfrentar as questões mais sérias, e sempre situadas no próprio contexto, teológico, litúrgico, musical, histórico e até sociológico. Não isento de limites, em alguns pontos, marcado por uma perspectiva por vezes um tanto conservadora dos temas abordados, é um autêntico tratado sobre o assunto Música Litúrgica. O texto acima, correspondente à pág. 50 desta edição, é disso um exemplo. É um livro de leitura agradável, numa linguagem muito simples e acessível, e onde muito se pode aprender e reflectir mesmo pela forma com que são colocadas as questões. O original foi escrito em inglês e está disponível também em edição espanhola.