CONCERTO DO CORO “ANÇÃBLE” EM VIANA DO CASTELO

CONCERTO DO GRUPO MUSICAL “ANÇÃBLE”, EM VIANA DO CASTELO, NO DIA 4 DE ABRIL DE 2026

Na tarde de Sábado Santo, pelas 17.00 horas, no contexto das celebrações da Semana Santa, por iniciativa e com o patrocínio do Município Vianense, foi realizado um concerto de música sacra pelo Grupo Vocal “Ançãble”. Este grupo vocal é formado exclusivamente por membros da família Lopes de Miranda, da freguesia de Ançã, concelho de Cantanhede [de onde o respectivo nome, tirando partido da assonância que resulta com a palavra francesa “ensemble” que significa “conjunto”]. Começou por ser um sexteto vocal, tendo por base cinco irmãos, todos com formação e actividade universitária, alguns deles com formação musical relevante, a que foram acrescentando os respectivos cônjuges e sob a direcção de um dos irmãos, P. Pedro Carlos. Com o passar do tempo, a família foi crescendo, em elementos e em idade, pelo que o primitivo grupo vocal se foi alargando também, enriquecendo-se em número, volume e timbre, nomeadamente quando os filhos foram atingindo a idade juvenil, imersos num ambiente familiar descontraído e sadio, marcado por uma profunda vivência cristã e cultural, com relevo para a prática musical. Actualmente a família, dos mais velhos aos mais pequeninos, conta já com meia centena de membros, com tendência para crescer, e o coro vai-se renovando e crescendo, podendo ainda contar com os elementos do grupo inicial.

A sua actividade musical resulta principalmente dos compromissos de alguns dos membros com a liturgia paroquial, agora em diversas latitudes, e o trabalho de preparação decorre fundamentalmente durante um período, não muito longo, nas férias de Verão, quando todos se juntam num local escolhido para convívio, diversão, fortalecimento dos laços familiares e muita, muita música. À prática do canto foi-se acrescentando também alguma prática instrumental, derivada não só da formação de alguns dos membros, mas também dos estudos realizados, já a nível superior, por alguns dos mais jovens, os da segunda geração.

Desenvolvem uma actividade litúrgica habitual, mas também uma frequente actuação em Concerto, com prevalência de música sacra, dedicando-se a um repertório vasto que vai da grande polifonia renascentista ao repertório contemporâneo (com relevo para autores portugueses), podendo agora aventurar-se mesmo em algum repertório romântico, que exige uma massa coral bastante significativa. Para além de realizarem concertos por todos o país – em Viana encontraram-se agora pela primeira vez – nomeadamente em Braga ou Coimbra, onde actuam frequentemente, mas também nas regiões mais recônditas, seja no nordeste trasmontano seja na paróquia de Vitorino dos Piães, em Ponte de Lima, onde estiveram para um pequeno Concerto, pelo Natal de 2012, juntando-se a um grupo de crianças da catequese paroquial. Este lado aproximativo às comunidades acaba por favorecer também uma integração da liturgia e da piedade popular na escolha do repertório. Durante vários anos apresentou-se regularmente nos concertos realizados sob o patrocínio do Instituto de Santo António dos Portugueses, na cidade de Roma, onde realizaram primeiras audições e registos discográficos de várias obras de Manuel Faria, Joaquim dos Santos, bem como de várias músicas por mim compostas, algumas delas especialmente para o grupo, com relevo para o pequeno Ciclo vocal “Três Cantigas de Santa Maria” que têm levado a diversas partes…

O presente concerto foi programado a partir do repertório adequado à quadra litúrgica, disponível e possível para uma realização sem ensaios prévios, dada a dispersão dos seus elementos durante a época festiva, por razões familiares, laborais e mesmo pastorais, como a ausência do próprio Director Artístico, ocupado nas celebrações da Semana Santa nas respectivas paróquias; por outro lado, o grupo encontrava-se ainda condicionado pelo tempo, já que se deveriam dispersar pouco depois por vários sítios, em virtude dos compromissos com a liturgia da Vigília Pascal. Estes factos, resumidamente assinalados, motivaram o meu comentário no final do Concerto: “Se cantam assim, sem ensaios, como é que cantariam se os tivessem podido realizar!…”. É evidente que conheço e convivo com o grupo de há muito tempo a esta parte, a ele devo a primeira audição e divulgação de muitos dos meus trabalhos e, expressamente e a pedido do mesmo, escrevi várias das minhas partituras, já que o posso fazer praticamente sem limitações de acessibilidade…

Numa inspiração estritamente quaresmal, após um Prelúdio organístico com a execução de Offertoire de Charles Gounod, o Programa procurou seguir o itinerário da Semana Maior, desde o Domingo de Ramos até ao Sábado Santo, marcando as respectivas etapas com repertório adequado a cada dia, desde o canto gregoriano à polifonia, como: Glória, laus et honor, marcando o Domingo de Ramos, Adoro Te devote e O Sacrum convivium  a Quinta-feira Santa, Responsórios e o Canto da Paixão segundo São João, em vernáculo, a Sexta-feira Santa, e mesmo com repertório de sabor mais popular como os cânticos  Santa Maria, Senhora da Luz e Nesta hora sem igual, assinalando a particular presença de Maria na cena do Calvário, junto à Cruz do Senhor, mas já projectada para o anúncio da Ressurreição…

O particular êxito e encanto deste concerto derivou fundamentalmente de nos encontrarmos perante um grupo que revela uma sonoridade única: as vozes naturais, sem artificiosismos técnicos, não são apenas familiares pela relação entre os seus elementos, mas até pelo respectivo timbre, conseguindo uma fusão ou “empasto sonoro”, único e um equilíbrio notável que mantém a mesma qualidade e beleza dum pianíssimo a um fortíssimo. Os elementos presentes pouco passavam das duas dezenas, mas enchiam perfeitamente o espaço e davam sentido pleno ao carácter e ambiente exigido por cada obra executada. Quem conhece o grupo desde o início tem o especial prazer e escutar e identificar a semelhança tímbrica das vozes dos mais jovens, sobretudo as meninas, que recordam com surpresa a sonoridade das vozes a solo dos mais velhos, já nos anos noventa. Poderia, com algum sentido de humor, afirmar que temos ali o exemplo perfeito da traditio, onde o passado e o presente se unem una voce, onde a novidade não renega o antigo, mas este, tal como um bom vinho, se reconhece especialmente rejuvenescido e enriquecido a cada ano que passa. Penso que se trata de algo único, em virtude de estarmos perante membros da mesma família, onde verificamos que o timbre das vozes, a sensibilidade estética, e mesmo o espírito da liturgia, se beberam com o leite materno. Ao mesmo tempo, podemos ter uma ideia mais acertada do que seria aquela prática musical familiar, muito frequente nos convívios “madrigalescos” das famílias renascentistas, na “musique de table” barroca, nos serões da Família Bach, nas “schubertíadas” da sociedade oitocentista, ou então no ambiente recolhido de muitos mosteiros, de Solesmes a Montserrat ou Santa Maria Real de las Huelgas.

A assembleia presente, bastante significativa, atenta e participativa, as ímpares condições acústicas da Igreja da Misericórdia, onde o espaço físico e respectiva decoração se unem ao canto numa ressonância única, a quadra pascal, tudo contribuiu para o êxito de um evento que esperamos, e fazemos votos, se venha a repetir entre nós, e muito em breve.

Meadela, 07 de Abril de 2026

Jorge Alves Barbosa